‘Uma espécie de bússola’: da medalha na OBMEP a Harvard
Medalhista de bronze, José Alves foi selecionado para um intercâmbio na Harvard Medical School
“Uma espécie de bússola.” É assim que José Alves, de 20 anos, define a importância da OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) em sua trajetória. Medalhista de bronze da competição no Ensino Médio, o estudante de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece) foi selecionado para participar de um intercâmbio na Harvard Medical School, nos Estados Unidos.
A experiência faz parte do programa “Desbravadores Globais da DescobertA²”, idealizado pela pesquisadora brasileira Fabrisia Ambrosio, diretora do Discovery Center for Musculoskeletal Recovery, com apoio do IDOR Ciência Pioneira. A iniciativa filantrópica do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino no Brasil tem uma parceria com a OBMEP e oferece bolsas para medalhistas que cursam graduação nas áreas de ciências biológicas e médicas. A oportunidade para concorrer ao intercâmbio foi divulgada entre os participantes do programa de bolsas e de outros projetos parceiros da iniciativa. Mais de 200 jovens se inscreveram no processo seletivo.
A oportunidade, que levará o jovem a Boston em 2027, é mais um capítulo de uma trajetória que começou ainda no Ensino Fundamental, quando participou pela primeira vez da OBMEP. Entre a medalha conquistada no segundo ano do Ensino Médio e a oportunidade de pesquisa internacional, vieram o Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC Jr.), a aprovação em Medicina e a bolsa do IDOR Ciência Pioneira.
“Digo que essa medalha de bronze da OBMEP é a mais valiosa para mim, porque graças a ela eu pude ter o PIC, pude receber a bolsa da Ciência Pioneira, pude me candidatar em intercâmbio e conseguir ser aprovado.”
Natural de Quixeramobim, no interior do Ceará, Alves cursou toda a Educação Básica em escolas públicas. A primeira participação na OBMEP aconteceu por volta do sexto ano. Na época, a matemática já despertava seu interesse, mas a olimpíada apresentou uma maneira diferente de aprender.
“Quando você vê uma abordagem da Olimpíada, que são problemas diferentes, coisas mais interativas, eu comecei a gostar de verdade, eu comecei a estudar”, lembra.
Ele chegou à segunda fase algumas vezes, mas a medalha veio um pouco mais tarde, com a conquista do bronze no 2º ano do Ensino Médio. A condecoração deu acesso ao PIC e abriu um caminho de novas oportunidades. A bolsa de R$ 300 recebida no programa teve um destino bem definido: os estudos. Alves utilizou o dinheiro para comprar apostilas e outros materiais que ajudaram na preparação para o vestibular.
O interesse, que começou pela matemática, foi se ampliando. O jovem passou a participar de outras olimpíadas e a se interessar também por Física, Química e Biologia. A escolha pela Medicina só veio mais tarde. Chegou a imaginar que seria astronauta e também se interessou por Engenharia.
“A partir da OBMEP eu comecei a seguir uma jornada que foi me levando para o caminho certo”, conta.
Matemática como ponto de partida
Hoje, no sexto semestre de Medicina, Alves continua aplicando as habilidades que desenvolveu no PIC. Para ele, mais importante do que um conteúdo específico aprendido no programa foi uma nova forma de pensar.
““Em geral, não caiu no vestibular o que me ensinaram no PIC, pois não é algo que cai em uma prova, mas aquela forma de pensar, aquele raciocínio um pouco mais abstrato, mais avançado, com certeza me ajudou, não só no vestibular, mas em qualquer outra coisa que eu faça hoje em dia”, afirma.
A capacidade de abstração desenvolvida com a matemática também encontrou espaço na formação médica.
“Acho que isso é muito útil hoje em dia para a medicina, para o raciocínio clínico, para as pesquisas científicas que eu quero elaborar também.”
É nesse caminho entre a formação em Medicina e o interesse pela pesquisa que surge o próximo passo da trajetória. Por meio do programa “Desbravadores Globais da Descoberta”, apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, ele terá a oportunidade de passar dois meses em Boston, durante o verão norte-americano, integrado a atividades de pesquisa no Discovery Center for Musculoskeletal Recovery, ligado ao Spaulding Rehabilitation Hospital e à Harvard Medical School. Alves viajará ao lado da estudante baiana Liz Vasconcelos, também selecionada para o programa.
Mais do que conhecer uma instituição que, até pouco tempo, parecia distante de sua realidade, Alves quer observar de perto como a pesquisa científica acontece no cotidiano.
“Quero aprender o dia a dia mesmo. Como é que eles fazem? Como é que aquela pessoa pensa no dia a dia? Porque a gente cria uma ideia que parece tão distante, né? Ah, um pesquisador de Harvard, parece que é, meu Deus, deve ser um alienígena, um super humano, um Deus.”
Para ele, a experiência também será uma oportunidade de levar esse aprendizado de volta para o Brasil. “Quero aprender tudo que tiver para ser aprendido, quero tentar extrair e trazer para cá também.”
A viagem, que está prevista para junho de 2027, será mais um passo em uma trajetória que começou com uma medalha de bronze na OBMEP e foi se ampliando por meio de diferentes oportunidades de formação. Para o jovem, o apoio recebido ao longo desse caminho foi fundamental. “Tudo isso só é possível por causa do apoio do IDOR Ciência Pioneira. Gostaria de deixar meu agradecimento a eles, porque sem esse apoio eu não teria essa oportunidade.”